Como sabemos que fumar provoca câncer?
por Alione Hebo • 29/10/2026
Sobre o Projecto
Como podemos descobrir se algo causa uma doença sem expor deliberadamente pessoas a esse risco?
Esta é uma das questões mais desafiantes da investigação científica.
Observar que duas coisas acontecem em simultâneo não significa, necessariamente, que uma seja a causa da outra. Ainda assim, é possível investigar relações de causa e efeito através de métodos estatísticos e diferentes fontes de evidência.
A história da ligação entre o consumo de tabaco e o cancro do pulmão é um exemplo marcante de como os dados podem ajudar a responder a perguntas complexas.
1. O ponto de partida: observar não é provar
Durante décadas, os investigadores procuraram compreender a relação entre o consumo de cigarros e o desenvolvimento do cancro do pulmão. A pergunta era clara: o consumo de tabaco aumenta o risco de desenvolver esta doença ou a associação observada pode ser explicada por outros factores?
Não seria ético realizar uma experiência que obrigasse um grupo de pessoas a fumar durante anos para verificar quem desenvolveria cancro. Por isso, os investigadores recorreram sobretudo a estudos observacionais, analisando pessoas que já tinham hábitos diferentes de consumo de tabaco.
Mas havia um problema: mesmo que os dados mostrassem uma associação entre fumar e desenvolver cancro, ainda seria necessário investigar se essa relação era causal.
Outros factores poderiam influenciar os resultados. A exposição a determinadas substâncias no ambiente de trabalho, por exemplo, poderia contribuir para o risco de doença. Era necessário considerar explicações alternativas, em vez de atribuir automaticamente toda a diferença observada ao tabaco.
É aqui que a Estatística começa a desempenhar um papel fundamental: ajudar os investigadores a avaliar hipóteses, comparar grupos e compreender até que ponto os dados sustentam uma conclusão.
2. Primeira abordagem: comparar pessoas com e sem a doença.
Uma das estratégias utilizadas foi o estudo caso-controlo.
A lógica é começar pelo resultado que se pretende investigar e procurar diferenças nas exposições anteriores das pessoas. Imaginemos dois grupos:
• Casos: pessoas diagnosticadas com cancro do pulmão.
• Controlos: pessoas sem esse diagnóstico, seleccionadas de forma adequada para permitir uma comparação válida.
Os investigadores recolhem informações sobre o historial de consumo de tabaco dos dois grupos e analisam se o hábito de fumar era mais frequente entre as pessoas diagnosticadas com a doença.
Se a exposição ao tabaco aparecer com maior frequência no grupo de casos, isso constitui uma evidência de associação.
Uma medida estatística utilizada neste tipo de estudo é o odds ratio, que compara as probabilidades relativas (odds) de exposição entre os grupos. Um valor superior a 1 pode indicar uma associação positiva entre o consumo de tabaco e a doença, mas, por si só, não demonstra causalidade.
Em 1950, cinco estudos epidemiológicos de caso-controlo publicados contribuíram para reforçar a associação entre o tabagismo e o cancro do pulmão. Entre os trabalhos mais influentes estavam os de Richard Doll e Austin Bradford Hill, no Reino Unido, e os de Ernst Wynder e Evarts Graham, nos Estados Unidos. Mas a investigação não terminou com essas comparações. Era necessário aprofundar a relação e perceber como o risco evoluía ao longo do tempo.
3. Segunda abordagem: acompanhar pessoas ao longo do tempo.
Outra estratégia importante é o estudo de coorte. Ao contrário do estudo caso-controlo, que começa por seleccionar pessoas com e sem a doença, um estudo de coorte pode começar por comparar grupos com diferentes níveis de exposição — por exemplo, fumadores e não fumadores — e acompanhar os seus resultados de saúde ao longo dos anos.
A sequência investigada é essencial:
Exposição ao tabaco → passagem do tempo → ocorrência da doença.
Este acompanhamento permite verificar se o consumo de tabaco antecede o desenvolvimento do cancro e comparar a ocorrência da doença entre os grupos.
Na década de 1950, os resultados de estudos de coorte acrescentaram evidências importantes à investigação sobre o tabagismo e o cancro do pulmão.
4. Quando diferentes evidências apontam na mesma direcção.
À medida que os estudos se acumularam, os investigadores passaram a dispor de mais do que uma simples associação estatística. Diferentes linhas de evidência começaram a sustentar a mesma conclusão. Entre os aspectos importantes estavam:
Consistência: a associação foi observada em diferentes estudos e populações, reduzindo a possibilidade de o resultado depender de uma única investigação.
Relação dose-resposta: em termos gerais, o risco de cancro do pulmão aumenta com a quantidade de cigarros consumidos e com os anos de consumo.
Plausibilidade biológica: o fumo do tabaco contém substâncias cancerígenas capazes de danificar o ADN e contribuir para o desenvolvimento do cancro.
Ordem temporal: o consumo de tabaco precede o desenvolvimento da doença, algo essencial para sustentar uma hipótese causal.
Nenhum destes elementos, considerado isoladamente, resolveu a questão. O seu valor esteve na combinação com outras evidências, na avaliação de explicações alternativas e na coerência dos resultados obtidos por diferentes métodos de investigação.
Actualmente, o National Cancer Institute (Instituto Nacional de Câncer dos EUA) indica que os fumadores apresentam, em média, um risco de desenvolver cancro do pulmão cerca de 20 vezes superior ao dos não fumadores. Trata-se de uma estimativa populacional, não de uma previsão individual: o risco de cada pessoa depende de vários factores.
Conclusão: dos dados às evidências
A história da ligação entre o tabaco e o cancro do pulmão demonstra que a Ciência de Dados pode ser uma disciplina capaz de auxiliar a dar respostas a diferentes tipos de problemas, como na saúde; e no mundo dos dados, encontrar um padrão pode ser apenas o começo para compreender o que esse padrão nos permite afirmar/concluir.